Sobre padrões de “beleza”

36! Decidiu que seu manequim tinha que ser 36! Nem quando tinha 15 conseguiu essa façanha, quem imaginaria na época, beirando os trinta. Nunca se deu bem com números. Lembro-me como se fosse hoje, quando estava na oitava série, e o professor Faruk lhe deu aquele zero. O zero, desde então, tornou-se o resultado de tudo em que colocava expectativa: zero namorados desde 1997, zero caras que elogiaram seu abdômen, zero kilos perdidos na dieta, zero noites gratificantes. Zero pra vida!

Era a sexta vez consecutiva que fazia planos para o verão. Estávamos no inverno, e a idéia do verão já lhe atormenta. Do verão ou do biquíni? “Aquelas celulites são mesmo de dar pesadelos antecipados”, pensava ela, a garota que se olhava no espelho e se achava gorda demais para caber dentro do coração de alguém.

Burger King, McDonald’s, Spoleto e Gordinhos House em geral estão proibidos. Agora até passeata em favor dos animais ela faz, e tudo para entrar na calça, no coração e nos padrões. Diatermia, cellutec, endermoterapia, velashape, subcisão, power plate, academia, spinning, futsal, natação… Os projetos sereia na areia, beleza espetacular, barriguinha entorta pescoço e umbigo no lugar, finalmente deram certo. Conseguiu o que os outros queriam. Agora só falta conseguir o que ela (realmente) quer, e isto não está em um folheto estampado com uma bunda perfeita.

Foto: Reprodução

Enviado por: Rúbia Gondim

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Sobre Alto do Salto

Somos muitas e, ainda assim, uma só.
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3 respostas para Sobre padrões de “beleza”

  1. Dude disse:

    E o que ela realmente quer senão ser o que todos desejam? Sentir-se amada ao som dos bandolins? Não diria ditadura. Ninguém é obrigado a encaixar-se no esteriótipo… A não ser que se queira desejada. Como dizia um velho comediante: Se não quer ser confundido com um pato, pare de sair por ai dizendo “Quack”.

  2. Se ela não fosse cobrada o tempo inteiro, talvez tivesse lutado para alcançar coisas mais significantes. A crônica diz que o que ela queria era “caber no coração de alguém”, mas a ditadura da magreza não permitia, porque ela era gorda. Sim, ditadura. A ditadura existe, você a seguindo ou não. São as normas impostas. Experimente procurar uma calça nº 44 em uma loja comum: dificilmente encontrará, e, caso encontre, estará na sessão de “números especiais”. Isto não é uma ditadura?
    Como se comunicar, se ela só ouve “quack quack quack”?

  3. Dude disse:

    Se você possui a opção de seguir ou não, certamente não é ditadura. O que existe é uma “forma-ideal” que é idolatrado pelos homens, e consequentemente, almejado pelas mulheres.
    A questão de não encontrar o nº da calça na loja (apesar de não me parecer verdadeiro), me pareceria uma falha do mercado. Por mais que a indústria da beleza lucre muito ao tornar todas as mulheres que estão à margem da “forma-ideal” insatisfeitas, no final do dia o que importa é o lucro. E isso inclui vender para todas as pessoas, magrinhas ou gordinhas. E isso o capitalismo faz bem.
    Podemos culpar a sociedade em que vivemos ou a nós mesmos. De quem é a culpa a final? Da sociedade que nos olha com certa repulsa por estarmos fora do padrão ou a nossa insegurança e insatisfação pessoal? É a sociedade que não nos aceita ou nós que não nos aceitamos? A resposta é, provavelmente, um pouco dos dois. Mas se pensarmos exclusivamente sobre nossa noção de felicidade pessoal, chegaríamos a conclusão que é mais fácil nós nos aceitarmos do que esperarmos as pessoas pararem de ter a semi-anorexia por beleza ideal.
    Aproveitando a metáfora… Nenhuma satisfação alcançou o patinho feio ao tentar se enturmar com os outros patos.

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